'Sem fé a pessoa se torna muito só', diz Christiane Torloni

novembro 08, 2011



Ela contava 12 anos quando estreou na TV. Era uma princesa no Teatrinho Trol, da Tupi, em 1969. Christiane Torloni, ou La Torloni, como ficaria conhecida na década de 80 após posar duas vezes para a Playboy, teve de provar, dia após dia, ser muito mais do que um rosto (e um corpo) bonito.

E provou. São 36 anos de carreira. No vasto repertório, novelas, séries e seriados de televisão, 15 longas-metragens, outras 14 peças. E personagens memoráveis, como a Joana Pentenado de A Gata Comeu (1985) ou a Helena de Mulheres Apaixonadas (2003). 

No ano passado, estrelou a peça A Loba de Ray-Ban, versão feminina do grande sucesso de 1988, em que dividia o palco com Raul Cortez. Os 22 anos que separam as duas montagens ganharam livro especial, que Christiane lança hoje na Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

A atriz conversou, semana passada, com a coluna - diretamente do Projac, no Rio. Preparava-se para entrar em cena como a vilã Tereza Cristina, na novela Fina Estampa, outra candidata ao panteão das grandes personagens da TV.

A seguir, os melhores  momentos da entrevista.

A Tereza Cristina não é só uma perua má?
Tenho a sensação de que o Aguinaldo Silva está fazendo um pot-pourri de alguns personagens dele neste trabalho. A Tereza Cristina não é totalmente má, feia ou bruxa. Ela tem humor, a dupla com o Crodoaldo dá esse tempero para ela.

Há quem diga que esses personagens são muito maniqueístas e caricatos.A realidade é muito mais caricata e forte do que a ficção. Tentamos chegar perto da realidade. Quando se lê um jornal, por exemplo, dá pra ver que nossos personagens são até ingênuos perto daquilo que acontece por aí...

O personagem foi desenhado assim ou você agregou esses elementos?
Eu não tenho autonomia. O autor sabe o que quer, a alma do personagem está no coração dele. Quem comanda é a alma dele, não a sua. A gente descansa da nossa alma quando está em cena. 

O que é necessário para vencer como ator?
Talento, vocação, disciplina e educação. Decora-se um livro por semana. Quando você dá um papel de peso para um ator, tem de ter certeza de que ele vai do começo ao fim com a mesma garra, como se fosse a decisão da Copa. Novela é isso. Você precisa ganhar todos os dias. Chama-se audiência. Não adianta ser só romântico. É preciso ser romântico e também um atleta da emoção.

Você gosta de se ver na TV?
No começo da carreira, tinha muito problema de me ver na TV. Durante muitos anos a autocrítica me impedia de ter prazer em me ver. Hoje consigo ter um distanciamento.

Existe limite para as intervenções estéticas? Diretores reclamam que muitas atrizes estão sem expressão.
Há limite pra tudo, pra qualquer tipo de intervenção, até intelectual. Acho que as pessoas precisam fazer o que sentem ser necessário, mas priorizando a própria saúde.

Você é uma mulher muito bonita. Quando está fazendo novela surgem mais partidos?
Pelo contrário, acho que surgem menos. Saio pouco quando estou em novela. Chega o fim de semana é uma decoreba sem fim. É como se você estivesse se preparando para o vestibular, com provas todas as segundas-feiras. Como estou fazendo televisão direto há três anos, vamos ver como vai ficar pro ano que vem.

Você tem uma grande capacidade de lidar com sucesso, tristeza, frustração...
A vida é como uma gincana, como uma novela. É dia após dia. Nesse sentido, os budistas têm um termo que eu acho muito bom: rigor de continuidade. Em bom português, significa “não desista”. E o humor pode ser um antídoto maravilhoso. O Dalai Lama também fala isso.

Segue alguma crença? O que é Deus para você?
Sigo os preceitos do budismo, sou católica por formação, gosto de ir à missa e comungar. Também leio a palavra de Cristo e acredito que ele e Buda são duas manifestações de muita luz para o ser humano. Sem fé a pessoa se torna muito só.

Você fica horas fechada em estúdio, gravando novela. Como faz para manter o equilíbrio mental e físico?

Pratico ioga há muito tempo e costumo fazer exercícios lúdicos, como andar de bicicleta. As práticas budistas também me ajudam bastante.

Envelhecer é um problema?

Acho que não. Envelhecer traz benefícios incríveis para a alma e para a sabedoria.

Fernanda Montenegro é um exemplo para todos. Você pretende continuar trabalhando até quando?
Enquanto tiver saúde. O Sergio Britto e a Bibi Ferreira, que beiram os 90 anos, provam que o tempo só aprimorou o talento deles. São pessoas que tocam a alma humana. Com o passar do tempo a alma fica brilhante e você conquista um público que vai te seguindo. Eu já sou seguida por filhos de fãs meus. Quantas pessoas no mundo podem viver isso? A carreira de ator é muito generosa nesse sentido.

Por que quis fazer o livro Do Lobo à Loba?
Ele ia ser um capítulo específico da minha biografia, que está sendo produzida pela Denise Mattar. Quando chegamos nessa parte, da peça O Lobo de Ray-Ban até A Loba de Ray-Ban, percebemos que tínhamos um material muito rico. Resolvemos, então, adiar a minha biografia e transformar esse capítulo em um livro em si. Do Lobo à Loba conta o encontro de 25 anos com meu querido José Possi Neto, que dirigiu também a primeira versão da peça, com o Raul Cortez. Conta a história de 25 anos do teatro brasileiro. É um livro de memórias do teatro.

Quais seus próximos projetos?
Talvez volte com a peça A Loba de Ray-Ban em 2013. Tenho também um projeto ligado à dança que pode entrar em andamento depois da novela. Mas, se Deus quiser, tirarei um ano sabático da televisão após um personagem maravilhoso como a Tereza Cristina. Ela não pode ser substituída imediatamente. Quero preservá-la como merece! Há até a possibilidade de A Loba de Ray-Ban virar filme... O que sei é que, assim que lançar o livro, retomo a biografia. 

Dá para o teatro sobreviver sem subsídios?
É complicado viver sem subsídios. Outros setores empresariais não sobreviveriam. A política da meia-entrada é importante para a formação de plateia e para oferecer cultura a quem realmente não pode pagar por ela. Mas está incompleta, porque não apoia o outro lado. Como que um produtor tem uma ideia, monta um espetáculo, se no final, tem que vender seu produto pela metade do preço e cobrir com isso o custo de produção? Temos de reavaliar também a carteira de estudante.Qual o critério para obtê-la? 

Qual é a sua opinião sobre a Lei Rouanet?
A proposta de mudança da lei não faz sentido, é melhor conservá-la como está. E discutir de forma mais profunda a Lei do Teatro. Sou contra o Fundo de Cultura. Como é que empresas vão colocar em um fundo recursos de campanhas de marketing para que o governo administre? Em um país como o Brasil, com histórico forte de corrupção, fica complicado. O que deveria existir é um projeto sólido de circulação e fomentação de cultura. Em vez de fechar caminhos, temos de abri-los. Eu sou uma batalhadora, que coloco a pasta embaixo do braço e vou à luta para montar meus espetáculos. Já escutei vários “nãos”, mas não desisti por causa deles.

Na sua opinião, a Ancine ajuda ou atrapalha?
A Lei do Audiovisual veio se sofisticando. Prova disso são as excelente e numerosas obras cinematográficas do país que fazem sucesso mundo afora. Mas isso porque finalmente enxergaram o cinema como indústria. O teatro nunca deixará de ser artesanal, mas precisa de subsídios governamentais como o cinema.

Você é uma mulher pró-verde, lutou na campanha Diretas Já. Há alguma outra bandeira que pretende levantar?
São causas que me tocam. As duas têm a ver com minha missão geracional, tanto as Diretas Já como a causa ecológica. O código florestal, se for aprovado da maneira como está agora, vai gerar prejuízos que castigarão o planeta inteiro. Belo Monte, por exemplo. A essa altura, sabemos o que significa a construção dessa hidrelétrica e o custo ambiental dessa obra, como ainda pensamos que pode ser algo benéfico? Por que o Brasil não foi convocado para votar sobre isso, para decidir se realmente quer e pode arcar com uma hidrelétrica como Belo Monte? Infelizmente, nossa democracia é muito frágil, nesse sentido. 

A faxina do governo Dilma merece aplausos?
A cruzada contra a corrupção merece aplausos.

Você acredita em complô internacional para se apropriar da Amazônia?
Não. O que existe é uma ignorância nacional em relação a isso. E um olhar internacional sobre aquilo que estamos fazendo com o nosso meio ambiente. Essa questão atinge nossa soberania. Não é porque a Amazônia está aqui que temos o direito de fazer tudo o que quisermos com ela. A Amazônia interfere no planeta. Temos incríveis meio ambientalistas que estão no governo. A Marina Silva fez um excelente trabalho dentro do Ministério. Ela mesmo disse: “Nós podemos ser o celeiro do mundo sem derrubar uma árvore”. Está cientificamente provado que podemos. Precisamos transformar essa mentalidade antiga que ainda temos. Parques eólicos demonstram a possibilidade de gerarmos energia limpa. Podemos abrigar uma Copa Verde. Olhem só a oportunidade histórica que o Brasil está tendo e que nenhum outro país teve!

Fonte : Estadão

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